
Isabella Vasconcellos de Oliveira
Médica. Mestre em Ciências da Saúde pela UNB. MBA em Gestão Avançada de Sistemas de Saúde (São Camilo).
Hoje, 21 de setembro de 2011, meus colegas médicos brasileiros que atuam como prestadores para operadoras de saúde suplementar participaram de uma paralisação nacional em defesa de seus honorários. Defendem uma remuneração mais justa, de R$ 60,00 pela consulta, o que, comparado a serviços prestados por outros profissionais, realmente não é muito.
Concordo que as tabelas de remuneração estão defasadas e admiro quem luta pela valorização do trabalho médico. Entretanto, da forma como a mídia anuncia o fato à população, as operadoras ficam parecendo as vilãs da história, enquanto que a classe médica ocupa a posição de vítima.
Nós que estamos dentro do sistema, sabemos que as coisas não são tão simples assim. Só quem acompanha o dia-a-dia de uma operadora de saúde suplementar, constata que a responsabilidade pela atual relação entre OPs e médicos é de todos e que a situação não é assim tão claramente fragmentada.
Venho repetindo ad nauseam que a principal responsável pela inflação da saúde é a classe médica. É a caneta do médico que solicita exames desnecessários, indica cirurgias quando o tratamento padrão é o conservador, pede próteses de marcas e medicamentos de alto custo dos quais recebe participações financeiras e atualmente até indica advogados a pacientes para que eles entrem com liminares, quando seus planos de saúde negam algum procedimento. Não estou dizendo que todos os médicos agem desse modo, sabemos que é uma minoria. Mas temos que parar de fingir que essas coisas não acontecem.
E claro que também sabemos por outro lado que existem OPs que praticam glosas lineares, ferem contratos e interferem na conduta médica.
Mas o que é exatamente interferir na conduta médica? É querer conversar com o colega quando ele solicita algo que nós, como auditores médicos consideramos sem evidencias ou desnecessário? Por que somente nós auditores temos que nos preocupar com o custo da saúde? Isso não deveria ser uma obrigação de todos???
Hoje, durante a tarde, indeferi uma solicitação de uma colega obstetra que pedia uma internação de véspera para uma cesárea numa gestante portadora de estreptococo do grupo B. Sua conduta médica estava corretíssima: pretendia fazer a profilaxia da infecção do recém nato pela bactéria presente na mãe com um antibiótico venoso. O problema: a operadora teria que pagar uma diária a mais por isso. Como a profilaxia é feita 4 horas antes do parto / cesárea, não vi justificativa para internação de véspera. Caso a paciente internasse às 7 da manhã, poderia ser operada na parte da tarde com toda a segurança. Diante da negativa, a colega médica entrou em contato comigo para tentar justificar sua solicitação. Havia agendado a cesárea eletiva para às 9 da manhã e então precisava que a gestante internasse na véspera. Então pedi que ela remarcasse a cirurgia para mais tarde, pois isso não justificava uma internação na véspera e ela argumentou que tinha consultório à tarde e não queria desmarcá-lo. Quando eu, educadamente disse que isso não era argumento que justificasse um incremento de custo para a operadora, a colega se enfureceu e disse: “Isso é um abuso. Você, como minha colega médica deveria entender que tenho meus compromissos”. Pois bem, na cabeça da minha colega, os “seus compromissos” justificam a transferência do ônus para a operadora, e conseqüentemente para toda a carteira da empresa da paciente. Ela se acha coberta de razão e certamente engrossará a fila dos que dizem que as Ops interferem na conduta dos médicos.
Estou cansada de ouvir dos meus colegas que eles não têm que se preocupar com custo, mas sim com o paciente, pois precisam oferecer a ele o melhor atendimento possível. Correto. Mas e nós auditores de OPs, não estamos preocupados com os nossos beneficiários? Temos uma preocupação muito mais complexa que vai da saúde do paciente / indivíduo à saúde de todos os beneficiários de uma carteira. Pois quando um colega indica um procedimento desnecessário, são todos os beneficiários daquela carteira que pagam por ele (é o princípio do mutualismo). Quando será que a classe médica se conscientizará disso?
Para finalizar este belo dia, ouço no Jornal nacional que o TCU auditou os hospitais federais no RJ e encontrou um rombo de 16 milhões de reais por desvios de verba. E o Governo querendo nos impingir um novo imposto para financiar o rombo da saúde pública….
Algo está errado com o mundo ou estarei ficando louca??????
Ainda bem que ainda existem pessoas lúcidas e profissionais, parabéns por colocar o “dedo na ferida”
Prezada Dra. Isabella,
Parabéns pelo artigo!
Realmente não há santo nessa relação.
É chegado o momento de adotarmos uma postura mais responsável no setor, e seu artigo mostra o outro lado, nem sempre exposto a quem não é do ramo.
Joel dos Santos Leitão
@JoelAdvogado
http://blogdojoelleitao.blogspot.com/
Parabéns pela coragem e principalmente pela coerência.
Parabéns a minha colega e amiga Isabella, concordo e luto lado a lado diariamente nessas causas, temos mesmo que tentar negociar sempre, mesmo que o desfecho nem sempre seja o almejado, mas acho que gradativamente vamos conscientizando , não somente o colega médico , como também o paciente , na adoção de procedimento/condutas acertadas e coerentes. Um gde abraço, Fábia Barradas
Drª. Isabella parabéns!Nesse nosso mercado a minoria que a senhora se refere acaba contaminando todo o sistema. Acredito que para combater e virar o jogo será necessário investir nas gerações futuras. Com ajuda do goveno, Instituições privadas e todos os orgãos das classes envolvidas com médicos e Ops.Deveríamos abrir um partido para defender os interesses dessa classe, rs.Ainda mais agora que estamos caminhando para o monopólio. lamentável!
Um forte abraço.
Dra Isabela,
Como sempre corajosa!
É difícil definirmos quem é o mais culpado pelo caos que está se tornando a saúde.
Parabéns pelo artigo!
Dra Parabéns pela expressão.
Trabalho em seguradora na saúde e seus relatos são extremamente óbvios, onde essa rede estende-se a prestadores que desde o pronto-socorro, exames e internação utilizam-se do poder de pedinte aos exageros.
Drª Isabella, parabéns pela coragem dessa exposição, como ex-funcionária de uma seguradora na área de saúde, sei bem o que é essa relação médico/operadora e quanto custa mantermos a serenidade. Que haja mais artigos de profissionais desse nível para esclarecer à população a realidade da saúde brasileira e o poder da caneta de seus médicos.
Dra Isabella, Parabéns.
São poucas as pessoas que tem coragem de fazer comentários tão lúcidos e verdadeiro, ver o outro lado da moeda para muitos é um absurdo….
Dra Isabela, Congratulações pela atitude e coragem. Sou funcionário de uma seguradora e presencio isto a todo momento. É o prestador jogando o segurado mal orientado contra a operadora. Como a nossa colega sugiriu, seria de grande utilidade a divulgação de maia artigos de forma constante e inibidora.
Isabela, parabéns. A intransigência dos poucos médicos que tentam destruir o sistema, se fossem maioria já o teriam conseguido, deve ser combatido sempre. As operados trabalham com uma poupança pública, sendo responsável em grantir a assistência na hora que seu usuário necessitar. A briga com as OPMEs só serão resolvidas quando o Ministério Público, Receita Federal tiverem interesse nisso e nós auditores temos que continuar essa discussão justamente para que eles vejam a necessidade de uma solução prática. Só com teorias vamos sucumbir.
Em relação ao pagamento de honorários vale lembrar que as operadoras sérias pagam a CBHPM dentro das variáveis que a AMB preconiza, com a banda de desvio, e portanto, ninguém pode reclamar a não ser da própria AMB e as Sociedades que fizeram a tabela com preços ridículos desde sempre. Eles não colocam preços justos pq simplesmente precisam que os médicos continuem a reclamar para poderem continuar falando que são necessários para a nossa classe, e continuem cobrando anuidades absurdas.
No mais eu queria apenas que médicos que se achem explorados pelas operadoras sérias que simplesmente saiam de suas listas, pq das não sérias nunca deveriam ter entrado…
Parabéns, Isabella!
É bom ver que ainda existem profissionais, como você, que valorizam o coletivo e não têm receio de se expor diante da sua classe.
Que Deus te dê forças para continuar e suportar possíveis represálias.
Abraço,
Maria Helena
Olá Dra. Isabella,
Excelente colocação, precisamos expor mais estas situações e promover debates para que algo seja feito.
Se nao houver colaboração de todos e aliar necessidades, conduta medica e atenção aos custos, estaremos sempre num dilema e com problemas na área de Saude.
Grande abraço e parabéns pelo texto!
Parabéns Dra. Isabela pela coragem, coerência e imparcialidade.
Creio que a melhor alternativa para o mercado , seria a implantação de um critério de “qualificação assistencial” para todos os players: Médicos, operadoras, hospitais e fornecedores de materiais.
Também entendo que a remuneração por performance por parte das operadoras e do Sistema Unico de Saúde , poderia contribuir para melhorar o assistencialismo e “reduzir” as fraudes no sistema.
O atual modelo de qualificação em Saúde das operadoras na Saúde Suplementar e a gestão sobre os recursos públicos no SUS além de serem questionáveis , não respondem algumas questões básicas:
1 – Quem possui o melhor grau de resolutividade nos diversos segmentos ( ambulatorial, clínico, cirúrgico, obstétrico,etc);
2 – De todos os usuários que se utilizam dos sistemas, quantos efetivamente são curados e quantos não saem do “desmame”;
3 – Quem efetivamente investe em promoção de saúde ?
4 – Somente com a medicina curativa, chegaremos a algum resultado positivo ?
5 – Quem controla a incorporação de novas tecnolgias sem aferir um “significativo” ganho no ato médico/diagnóstico ? No japão isso existe e deveria ser um exempo para nós.
Enfim, enquanto não obtivermos estas respostas, infelizmente tenho que reconhecer que o grande prejudicado neste sistema ainda é EXCLUSIVAMENTE O USUÁRIO que, em alguns casos é contribuinte do Sistema Público e do Suplementar simultaneamente; e mesmo assim, fica a mercê de alguns lobos na pele de cordeiro.
Não te conheço, Isabella, mas devo parabenizá-la pelo artigo. Concordo com uma remuneração médica mais justa. Mas isso não é justificativa para receber gratificação pelo uso de materiais, para o overuse de tecnologia e para não examinar os pacientes durante as consultas (que é uma queixa cada vez mais frequente). Portanto, enquanto estiverem paralisados os colegas médicos deveriam aproveitar para se atualizar e pensar de que forma suas condutas precisam mudar para conseguirmos obter melhores desfechos clínicos. Porque hoje além de cara, a assistência médica tem qualidade sofrível.
São atitudes como essas que nos levam a repensar os valores e para onde estamos levando a Saúde Suplementar. Digo que conduzimos pois sou eu, a Dra. Isabella Vasconcellos de Oliveira e você que podemos mudar esse quadro. Não vamos mais apondar vilões, vamos ser coerentes, éticos e transparentes, assim poderemos canalizar os esforços e RECURSOS para os locais certos. Parabéns Dra. e não se sinta sozinha!